José Alcides Pinto: Subversão pela palavra
“Tudo aquilo que você lê nos meus livros é verdade. Eu apenas teatralizo um pouco.
Mas não é assim a própria vida?”
Há um pouco mais de um mês, se foi. O alucinado José Alcides Pinto deixou marcas de sua vida em obras. “Toda minha obra é autobiográfica. Tudo aquilo que você lê nos meus livros é verdade. Eu apenas teatralizo um pouco. Mas não é assim a própria vida?”, disse o escritor. O escritor de obras transgressoras – como o relicário Pornô, faleceu no dia 2 de junho, deixando hiatos na literatura nacional. É considerado um poeta de vanguarda e experimental. Muitas definições cabem em sua literatura: fantástica, maldita, alucinada, libertária, transgressora. Enfim, ele não se encaixava em nenhum, se considerava um homem livre. Gilberto Mendonça Teles, estudioso da obra de Alcides, o definiu como poeta sem geração: “ele não se filia esteticamente a nenhuma geração especifica. A liberdade e o propósito de subversão fez dele um poeta sem geração.”
Considerado como um poeta maldito, o tema de suas obras, causa um espanto inicial. Seus personagens dialogam com a morte, encaram a dor e a loucura, têm afeto pelo surreal e tremem de desejo com o sexo, e atravessam a fronteira entre o sagrado e o profano, enfim, encaram a vida como experiência mística. “Não existe distancias entre o sagrado e o profano, as fronteiras se bifurcam”, afirmou escritor.
Professor de Literatura da UFC, Paulo de Tarso Pardal apresenta Alcides como um “autor que se impôs pelo talento e pela atitude iconoclasta. A influência dos cânones dos primeiros momentos do Modernismo Brasileiro é notória em sua obra. A quebra de tabus, a subversão dos preceitos da construção ficcional e poética são marcas em seus textos. ”
Vida e obra são duas dimensões que se confundem em José Alcides Pinto. A clássica trilogia Tempo dos Mortos, é uma demonstração disso: “O livro fala do tempo em que eu estive internado no Hospital dos Servidores do Estado, no Rio de Janeiro”, conta o poeta. Tempo dos Mortos é formada pelo romances “Estação da morte”, publicado pela primeira vez em 1968; e “O enigma” e “O sonho”, ambos de 1974. São escritos pouco extensos que mantém uma heterogeneidade de temática e de universo ficcional, mas que conseguem ter uma certa independência entre si. A poesia de Alcides, como afirma pesquisadora Nelly Novaes Coelho, “assume o Erotismo mesclado ao Satanismo e à Loucura, reafirmando pelo avesso o caráter sagrado do sexo.”
Ao tentar que sua obra virasse literatura, se decepcionou. O autor, em vida, não conseguiu reconhecimento amplo.“O fato de meus conterrâneos terem ignorado minha autobiografia, ‘Manifesto Traído, deixou mágoas’, disse Alcides. Sua obra mais conhecida, Os Verdes Abutres da Colina, foram lidas e mal interpretadas, considerado absurdo. “Nenhum personagem do Livro está fora do círculo da Alucinação”, afirma Paulo de Tarso Pardal.
>> Sobre autor:
Ficcionista e poeta, nasceu em São Francisco do Estreito, distrito de Santana do Acaraú, no Ceará. Diplomou-se em Jornalismo pela Faculdade Nacional de Filosofia da antiga Universidade do Brasil e em Biblioteconomia pela Biblioteca Nacional.
Participou de antologias nacionais e estrangeiras. Ganhador de vários prêmios, entre eles o Prêmio Nacional da Petrobrás, na categoria conto, 1988, e o Grande Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), 1999. Foi professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Universidade Federal do Ceará. Tem livros publicados na área do romance, novela, conto, teatro, poesia e crítica literária. É considerado um poeta de vanguarda e experimental.
>> Leia José Alcides Pinto:
Unicórnio Dourado
O mar não é tema: tema é o ar do mar.
A poesia é didática – luz
sobre a história e esquecidos altares.
Toda estética; toda, puericultura
lagos oceânicos; ilhas, promontórios
as cidades primevas, o sangue dos heróis
tudo fica muito aquém e além de tuas caldeiras.
De tuas membranas, de tuas
álgidas montanhas marinhas
surge o unicórnio dourado
carregado de sonho e solidão.
E sobre as ondas aquece-se; talvez
esquecido do tempo; a que fim
este unicórnio soçobra-se de mim?
Plumas e pratas patas – unicórnio
um e único – mar
oh soberano rei dos sorvedouros!
>> Outras obras:
Site: http://www.jornaldepoesia.jor.br/alcides.html